Entrevista com o Prof. Dr. Júlio Furtado

 

O Professor Júlio Furtado é graduado em Geografia, Pedagogia e Psicologia. Pós-graduado em Orientação Educacional, Gestalt-terapia e Dinâmica de grupo. Especialista em PNL (Programação Neolinguística). Diplomado em Psicopedagogia pela Universidade de Havana, Cuba. Mestre em Educação pela UFRJ. Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Havana, Cuba. Professor Universitário (Graduação e Pós-graduação). Reitor da UNIABEU, RJ.

 

PF. Prof. Júlio. O que diz a teoria da aprendizagem significativa?

A teoria é resultado de vinte anos de estudos do Psiquiatra americano David Ausubel, nas décadas de 50 e 60. Em síntese a teoria afirma que para ser significativa, uma aprendizagem precisa ter relação e se apoiar em uma aprendizagem anterior. Caso essa relação não ocorra, não haverá a formação de significado e a aprendizagem será meramente mecânica. A partir dessa premissa, o professor deve se preocupar em verificar se o que o aluno já sabe pode sustentar a nova aprendizagem. Por exemplo, verificar se o aluno sabe somar, antes de ensinar multiplicação. A aprendizagem anterior facilita a negociação de sentido para o aluno, ou seja, ele se baseia num referencial próximo para formar o novo conceito, que enriquece o conceito anterior e se torna um referencial para novas aprendizagens.

PF. Prof. Júlio. Muitos alunos apresentam dificuldade de aprendizagem. De que forma a aprendizagem significativa pode contribui com esse processo?

Tem-se discutido muito a respeito dessa expressão. Quais os limites entre a dificuldade de aprender e a dificuldade de ensinar? Será que posso abordar as dificuldades de aprendizagem isoladamente? A teoria da aprendizagem significativa elucida muitas questões essenciais, de forma que o professor possa formatar sua metodologia coerente com o processo cognitivo da criança ou do adolescente. A principal orientação diz respeito à negociação de sentido, aspecto que tem sido bastante negligenciado em nossas salas de aula. Ao ensinar “campo magnético”, por exemplo, o professor precisa ter consciência de que a palavra “campo”, embora conhecida pela criança, possui um sentido bem diferente do sentido que ela precisará atribuir a essa palavra para que possa compreender o conceito de “campo magnético”. Ao ouvir a palavra “campo”, forma-se na mente da criança, a imagem de um campo de futebol, por exemplo. Essa imagem precisa ser desconstruída para dar lugar à construção de uma nova noção de campo e esse processo não é simples. Apenas com base nesse exemplo, imaginemos a quantidade de crianças que não aprenderam o conceito de “campo magnético” porque não conseguiram construir o sentido correto da palavra “campo”. Poderíamos afirmar que se trata de um problema de aprendizagem?

PF. Como você analisa o posicionamento dos professores quanto à aplicabilidade da aprendizagem significativa multidisciplinar? É uma realidade em salas de aula?

A multidisciplinaridade depende de consciência e integração. É preciso que os professores compreendam que o mundo está se tornando cada vez mais complexo e, dessa forma, está ficando cada vez mais difícil de ser compreendido através de uma única visão (disciplina). Para que possamos compreender, por exemplo, a problemática da AIDS, precisamos, inicialmente, da visão da Biologia, mas precisamos também da visão da História, da Geografia, da Economia e da Estatística para termos uma compreensão mais completa do problema. Quando proporcionamos ao aluno múltiplas visões sobre um mesmo fenômeno estamos favorecendo a construção de significado. É preciso que os professores trabalhem de forma integrada. Que compartilhem seus saberes e dificuldades e através dessa atitude, favoreça a multidisciplinaridade. O trabalho multidisciplinar ainda não é uma realidade em nossas salas de aula porque ainda falta consciência e integração.

 

PF. Professor, todos nos já aprendemos por ensaio e erro e sabemos quão complexos são esses processos. Como você analisa o ensaio e erro na construção do conhecimento?

O ensaio e erro é um processo de aprendizagem essencial para o desenvolvimento da autonomia intelectual. É papel da escola incentivar a aprendizagem através desse caminho. Exercitá-lo num ambiente seguro e planejado como deve ser a sala de aula possibilita o desenvolvimento do hábito da descoberta através da intensificação de comportamentos que apresentem resultados positivos e da rejeição de comportamentos que apresentem resultados negativos. É assim quando tentamos manusear um novo aparelho de celular ou quando tentamos montar um objeto sem o manual de instruções. O ensaio e o erro estão naturalmente presentes no processo de construção do conhecimento, através da negociação de sentido. É o equivalente ao processo de assimilação na concepção de Piaget. O novo é comparado com diversos modelos até que se assemelhe a um modelo mais adequado. Ocorre esse processo quando uma criança chama um cavalo de “au au”. Ela conhece um cachorro e faz uma análise por aproximação com o cavalo (quatro patas, rabo, focinho, etc.). Ao ouvir o cavalo relinchar, a criança começará a fazer as diferenciações necessárias para que construa o conceito de cavalo.

PF. A formação continuada para educadores seria uma forma de estimular o professor com relação ao desenvolvimento de suas práticas educacionais? 

Depende muito de como o processo é conduzido e da concepção que se tem do processo. A formação continuada possui três eixos que se complementam: a formação pessoal, a formação científica e a formação metodológica. O que se observa é uma grande ênfase ao eixo metodológico, pouca ênfase ao eixo científico e quase nenhuma ênfase ao eixo da formação pessoal. O professor precisa aprender métodos, técnicas e recursos de ensino. O conhecimento científico vai dar a ele a base necessária para que ele não se torne mero aplicador de técnicas e a formação pessoal vai favorecer e possibilitar o comprometimento com o processo. 

PF. Como você analisa a Educação ligada as mídias digitais no atual cenário brasileiro? 

As mídias digitais na educação, a princípio tiveram função ilustrativa. Com o passar dos tempos e com a consolidação da era da informação, o papel das mídias digitais foi se ampliando e hoje, elas são capazes de desempenhar o papel de transmissão de informações de maneira mais eficaz do que muitos professores o fariam. No atual cenário brasileiro, as mídias digitais ainda não foram percebidas ou descobertas pela escola com todo o potencial de apoio que elas possuem, diminuindo bastante o papel de transmissor de informações do professor. A questão é que o professor, ao se ver com mais disponibilidade terá que assumir mais a miúde seu papel de educador, de facilitador, de apoiador, de mediador relacional da aprendizagem e isso ainda o ameaça bastante. Resumo da ópera: no geral, os professores se mantêm afastados e temerosos com relação a esse recurso. 

PF. O número de cursos de licenciatura está caindo a cada ano em nosso país. Ser professor é um desejo de poucos, diante do cenário de desvalorização profissional que vivemos. Como você analisa a realidade da educação brasileira com relação especificamente ao professor?

O quadro é preocupante. Os bons professores estão se aposentando e não está havendo reposição no mesmo nível quantitativo e quantitativo. Alguns dados ratificam essa realidade e aumentam nossas preocupações. Além de sensíveis quedas na procura, os cursos de Licenciatura sofrem, hoje, com o nível de qualidade dos poucos alunos que ingressam. São urgentes as medidas no sentido de mudar esse quadro e, via de regra, convergem para a valorização do professor em todos os sentidos, principalmente no financeiro. Outra questão, porém, igualmente urgente é a reconstrução da identidade docente, a partir de uma inserção na Era do conhecimento. O professor deixa de ser o transmissor de informações e detentor de todo o conhecimento para se tornar um dinamizador do processo de aprendizagem através da articulação dos recursos e processos que facilitam o aprender. 

PF. Como seria para você a educação do futuro?

Um processo muito mais pautado no desenvolvimento de habilidades de relação humana e relação com o conhecimento do que na transmissão de informações. Para tal, o foco da ação docente deverá ser relacional e acadêmico. O professor será o catalizador das informações e habilidades necessárias à construção do conhecimento. Pode parecer estranha essa afirmação, uma vez que esse é o discurso formal da Educação nos últimos 30 anos. A questão é que o discurso da prática não confere com a prática do discurso. Na Educação do futuro, essa realidade é contundente e inevitável.

 

Entrevista concedida à Cíntia Faro – Portal Futurum Educativo S.A

 

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